Divulgação Científica no Brasil

O propósito das universidades não é produzir advogados, médicos ou engenheiros competentes.
É criar seres humanos capazes e cultos.
John Stuart Mill
 
Será que o problema é que ensinamos apenas ciências nas aulas de ciências?

Será que o problema é que ensinamos apenas ciências   nas aulas de ciências? 

Eu achava que não havia muita gente falando de ciência no Brasil. Mas há sim. Muita gente, especialmente estudantes de pós-graduação e recém doutores, principalmente em blogs pessoais, se esforçando para fazer divulgação desse assunto considerado “chato” pela maioria das pessoas, mas que na verdade faz parte da vida e do dia-a-dia de todo mundo. Porém, parece que os textos de qualidade raramente chegam ao público geral, e se chegam, não se disseminam e informam/educam como deveriam. Por que será?

Bem, eu não tenho uma resposta certa para a pergunta, mesmo porque não estudei nem pesquisei o suficiente sobre o assunto, mas tenho algumas impressões pessoais.

A primeira coisa, obviamente, é a já batida ladainha do “problema da educação” no Brasil. Se a maior parte de nossa população mal consegue interpretar um texto simples, o que dirá de um texto científico (ainda que de divulgação popular, com linguagem simplificada), o qual normalmente requer o conhecimento de conceitos específicos e capacidades de correlação, para ficar no mínimo necessário. Falar para quem entende já é difícil, imagine só falar pra quem não possui domínio das “ferramentas”! Isso é uma restrição enorme.

Consideremos, entretanto, apenas o público para o qual a barreira citada anteriormente não existe (teoricamente): as pessoas que têm um nível educacional “adequado”, se é que tal coisa existe. Ainda assim, ficamos extremamente restritos na divulgação da ciência. Normalmente as pessoas que possuem nível superior, quando fazem leitura de algo científico, se restringem a sua área de atuação, e não mostram interesse em conhecer muito de outras áreas. Percebo que mesmo na universidade, que deveria ser um “centro de produção, troca e disseminação de conhecimento”, as pessoas só sabem daquilo que elas fazem, não têm ideia do que os colegas produzem em outro laboratório (a não ser que eles ganhem um prêmio e fiquem bastante expostos na mídia).

A questão principal, a meu ver, é que não somente na ciência, mas em tudo nessa nossa sociedade atual, estamos tomados de um enorme egoísmo, em que pensamos e perpetuamos somente (n)aquilo que é estritamente do nosso interesse. Raramente somos capazes de olhar para fora de nosso próprio umbigo. Até falamos de como vai mal o mundo, de que isso ou aquilo é um enorme problema – mas quais dessas conversas ultrapassam o nível da superficialidade? Quais realmente geram ações que possam mudar algo? A gente fala que tá ruim, e deixa pra lá rapidamente, porque estamos cansados, precisamos nos distrair pra não ficarmos loucos; ou então porque temos que trabalhar sem parar, nesses ofícios que nos consomem e muitas vezes nos impedem de viver como realmente deveríamos.

Então, parece que fugi um tanto do assunto – mas na verdade não. Pra resumir, o fato é que somos reflexo de uma cultura e de uma sociedade, e por estarmos tão intricadamente ligados a elas, tudo o que fizermos também refletirá o “padrão” preponderante. E é isso que acontece também com a divulgação científica. Se quisermos que ela atinja mais pessoas e cumpra realmente com seu papel, precisamos mudar primeiro a forma como agimos, quebrar essa cultura arraigada do “egoísmo”. Claro que há uma série de outras questões mais complicadas, tais como a simplificação exagerada e os erros grotescos divulgados pela mídia de massa (que geralmente não tem assessoria científica), a desvalorização da ciência em nossa sociedade, a “falta de tradição” científica em nosso país, a porca política educacional, entre outros. Mas o ponto mais fácil de mudar, é aquele que podemos controlar: nós mesmos. E acredito que é por aí que temos que começar. Se nós mesmos não tivermos interesse pela Ciência como um todo (e não só pela ciência que fazemos), como faremos as demais pessoas o terem?

Deixo para reflexão um trecho do livro “Religião para Ateus”, de Alain de Botton:

“Ao mesmo tempo em que as universidades conquistaram uma competência sem paralelos na transmissão de informação factual acerca da cultura, elas permanecem de todo desinteressadas em treinar os estudantes para usá-la como repertório de sabedoria – com esse último termo referindo-se a um tipo de conhecimento relacionado a coisas que não são apenas verdadeiras, mas intrinsecamente benéficas, um conhecimento que se prova reconfortante para nós quando confrontados pelos infinitos desafios da existência, de um patrão tirânico a uma lesão fatal no fígado.”

OBS: O foco ficou nas universidades porque em geral é nelas que a maior parte da Ciência é produzida, e principalmente, porque são elas que em geral têm o papel de difundir o conhecimento para outras esferas educacionais.

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